EDGAR ALLAN POE



FICO COMPLETA,
POESIA & ENSAIOS


Organizados, traduzidos e anotados por

OSCAR MENDES

com a colaborao de

MILTON AMADO



Precedida de estudos biogrficos e crticos por

HERVEY ALLEN, CHARLES BAUDELAIRE e OSCAR MENDES




RIO DE JANEIRO, EDITORA NOVA AGUILAR., 1997




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VIDA E OBRA DE EDGAR ALLAN POE
HERVEY ALLEN


NASCIMENTO


AT BEM POUCOS ANOS, vinha sendo a biografia de Poe uma das mais obscuras e
controvertidas no campo das letras americanas. Os cuidadosos trabalhos de vrios
eruditos e o aparecimento peridico de novas provas, devidas a pesquisas e felizes acasos
no correr dos anos, tornaram possvel, com um grau mais ou menos definitivo de
exatido, os principais acontecimentos da ida de uma das poucas figuras da literatura
americana que alcanaram um nicho na galeria da fama universal. No que concerne aos
acontecimentos e aos fatos do calendrio da vida do poeta, no h mais desculpa em
falar no "mistrio de Poe". O enigma, se algum h, que continua preso ao nome de Edgar
Allan Poe deve ser encontrada mais no carter do homem do que nos fatos de sua jornada
terrestre. Edgar Allan Poe nasceu no nmero 33 da rua Hollis, em Boston
(Massachusetts), a 19 de janeiro de 1809, filho de pobres atores, Davi e Isabel (nascida
Arnold) Poe. Seus pais achavam-se ento cumprindo um contrato num teatro de Boston e
as representaes de ambos, juntamente com sua permanncia em vrios lugares,
durante sua carreira errante, podem ser acompanhadas plenamente pelos programas de
teatro do tempo.


LINHAGEM PATERNA

O PAI DO POETA era um tal Davi Poe, de Baltimore (Maryland), que havia abandonado o
estudo do Direito, naquela cidade, para seguir a carreira teatral, contra o desejo de sua
famlia. Os Poe haviam se estabelecido na Amrica, duas ou trs geraes antes do
nascimento de Edgar. Traa-se distintamente sua linha ascendente at Dring, da
Parquia de Kildallen, do Condado de Cavan, na Irlanda e da at a parquia de Fenwick,
em Ayrshire, na Esccia. Portanto, derivavam eles de um tronco escoto-irlands, sendo
duvidoso que haja traos de Celtas. Os primeiros Poe vieram para a Amrica a por 1739.
Os imediatos antepassados paternos do poeta desembarcaram em Newcastle (Delaware),
em 1748, ou pouco mais cedo. Eram eles Joo Poe e sua mulher, Joana McBride Poe, que
foram estabelecer-se na Pensilvnia oriental. Este casal teve dez filhos, entre os quais
Davi, que foi o av do poeta. Davi Poe casou-se com Isabel Cairnes, tambm de
ascendncia escoto-irlandesa e viveram em Lancater (Pensilvnia), donde algum tempo
antes de rebentar a Revoluo Americana, se removeram para Baltimore (Maryland).
Davido Poe e sua mulher, Isabel Cairnes Poe tomaram o partido patritico da revoluluo.
Davi mostrou-se ativo em expulsar de Baltimore os partidrios do Rei e foi nomeado
"Deputado Quartel-Mestre Assistente", o que significava ser ele agente de
aprovisionamentos militares para o Exrcito Revolucionrio.. Diz-se que ele prestou
considervel auxlio a Lafayette, durante as campanhas da Virgnia e do Sul, e por essa
patritica atividade recebeu o ttulo de "General" honorrio. Sua mulher, Isabel, tomou
parte ativa na confeco de roupas para o Exrcito Continental. Davi e Isabel Poe tiveram
sete filhos. Davi, o mais velho, veio a ser o pai do poeta. Duas irms de Davi, Elisa Poe
(depois Sra. Henry Herring) e Maria Poe (mais tarde Sra. William Clemm), entram na
histria da vida do poeta, a ltima, especialmente, por se ter tornado sua sogra, alm de
ser sua tia. Com ela ele viveu de 1835 a 1849.

O jovem Davi Poe estava destinado ao estudo do Direito, mas, como j mencionamos,
deixou por fim a cidade natal para seguir a carreira do teatro. Sua estria profissional



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realizou-se em Charleston (Carolina do Sul), em dezembro de 1803. Uma notcia teatral
dessa representao, num jornal local, descreve Davi Poe como sendo extremamente
tmido, ao passo que: ... Sua voz parece clara, melodiosa e varvel; qual possa ser seu
compasso, s se revela quando ele representa libertado de sua timidez. Sua dico parece
ser bem distinta e articulada; e seu rosto e sua pessoa dizem muito em seu favor. Seu
tamanho  daquele porte bem adequado  ao geral, se seu talento se adaptasse ao soco
e ao coturno...  este, talvez, o nico testemunho direto existente do aspecto fsico do pai
do poeta. No se conhecem retratos dele. Suas qualidades histrinicas eram, quando
muito, limitadas. Continuou a representar papis menores em vrias cidades do Sul e, em
janeiro de 1806, casou-se com Isabel Arnold Hopkins, jovem viva sem filhos, tambm
atriz, cujo marido morrera havia poucos meses. Isabel Arnold Poe veio a ser a me de
Edgar Allan Poe.


LINHAGEM MATERNA

A JOVEM VIUVA, com quem Davi Poe se casou em 1806, nascera na Inglaterra, na
primavera de 1787. Era filha de Henry Arnold e de Isabel Arnold (nascida Smith), ambos
atores no Teatro Real de Covent Garden, em Londres. Henry Arnold morreu, ao que
parece, em 1793. Sua viva continuou a sustentar-se e  filha, representando e cantando,
e, em 1796, trazendo consigo sua jovem filha, veio para a Amrica, desembarcando em
Boston. A Sra. Arnold continuou sua carreira profissional na Amrica, a princpio com
pouqussimo xito. Ou imediatamente antes, ou logo depois de chegar aos Estados
Unidos, porm, casou-se uma segunda vez, com um tal Charles Tubbs, ingls de poucos
dotes e pouco carter. O casal continuou a representar, a cantar e danar em vrias
cidades, por toda a costa oriental, e a jovem Srta. Arnold foi logo notada nos cartazes,
aparecendo em papis juvenis, como membro de vrias companhias a que sua famlia
pertencia. O Sr. e Sra. Tubbs desapareceram de vista, a por 1798, mas a carreira de
Isabel Arnold, me de Poe, pode ser seguida, cuidadosamente, pelos vrios cartazes de
anncios e notcias nos jornais das diversas cidades em que representou, at sua morte,
em 1811. Foi durante suas viagens como atriz que se casou com C. D. Hopkins, tambm
ator, em agosto de 1802. No houve filhos dessa unio. Hopkins morreu trs anos depois,
e, em 1806, como foi dito antes, sua viva casou-se com Davi Poe.O casal continuou a
representar junto, mas com muito pouco xito. Nasceram-lhe trs filhos: William Henry
Leonard, nascido em Boston, em 1807; Edgar, nascido em Boston, em 1809; e Roslia,
em Norfolk (Virgnia), provavelmente em dezembro de 1810. Devido  pobreza deles, que
era sempre extrema, o primeiro filho, Henry, fora deixado aos cuidados de seus avs, em
Baltimore, logo depois de nascido. Edgar nascera enquanto seus pais cumpriam um
contrato no Teatro de Boston. No vero de 1809, os Poe foram para Nova York, onde Davi
Poe ou morreu ou abandonou sua mulher, provavelmente esta ltima coisa. A Sra. Poe foi
abandonada com o menino Edgar e, algum tempo depois, deu  luz a uma filha. Lanou-
se suspeita, mais tarde, a respeito da paternidade dessa ltima criana e sobre a
reputao da Sra. Poe, suspeita essa que desempenhou desgraado papel nas vidas de
seus filhos. No  preciso dizer que tal suspeita era injusta. De 1810 em diante, a Sra.
Poe continuou, embora com a sade decadente, a aparecer em vrios papis em Norfolk
(Virgnia), em Charleston (Carolina do Sul), e em Richmond. No inverno de 1811, foi
dominada por uma doena fatal e morreu a 8 de dezembro, em situao de grande
misria e pobreza, na casa de uma modista de chapus, escocesa, em Richmond. Foi
sepultada no cemitrio da Igreja Episcopal de S. Joo, daquela cidade, dois dias mais
tarde, mas no sem alguma pia oposio.



INFNCIA




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SOBREVIVIAM  Sra. Poe trs crianas rfs. Duas delas, Edgar e Roslia, achavam-se
com ela ao tempo de sua morte e foram tratadas por pessoas caridosas. Edgar, ento com
cerca de dois anos de idade, foi levado para a casa de John Allan, negociante escocs em
situao francamente prspera, ao passo que a pequena Rosalia recebera abrigo em casa
do casal William Mackenzie. Os Alians e os Mackenzies eram amigos ntimos e vizinhos.
As crianas ficaram naquelas casas e o fato de sua criao tornou-se, com o correr do
tempo, equivalente a uma adoo. Frances Keeling Valentine Allan, esposa do
comerciante escocs que dera abrigo ao "pequeno rfo Edgar Poe", no tinha filhos,
embora estivesse casada havia muitos anos. O menino Edgar parece ter sido uma criana
viva e atraente, e, a despeito de certa relutncia do Sr. Allan, foi logo admitido como
membro permanente da famlia. Embora haja certa prova de uma tentativa da parte dos
parentes paternos de Baltimore para demonstrar seu interesse pela criana, o rapazinho
ficou como filho de criao de John Allan, em Richmond, onde bem cedo foi posto numa
escola mantida por uma dama escocesa, e, ao que parece, mais tarde, na de um tal
William Irving, professor local. H bastante prova de que seus primeiros anos de infncia
passou-os, ele, em ambientes felizes e confortveis. A Sra. Allan e sua irm solteira Nancy
Valentine, que residia na mesma casa eram especialmente loucas pelo seu "garoto".
Parece que ele, realmente, foi um tanto tratado com excesso de mimos, como se fosse
uma criancinha, da parte das mulheres, o que o pai de criao procurava contrabalanar
com severidade ocasional, mas provavelmente bem oportuna. Em 1815, a famlia viajou
para a Inglaterra, a bordo do Lothair, levando Edgar consigo. Depois de breve estada em
Londres, visitaram uns parentes da Esccia, os Galts, Alans e Fowlds, em Kilmarnock,
Irvine e outros lugares perto de Ayrshire. Viajaram para Glasgow e depois voltaram a
Londres, no fim do outono de 1815, quando Edgar foi enviado de volta  Esccia, para
Irvine. Ali, durante pouco tempo, freqentou a Escola de Gramtica. Em 1816, porm,
regressou a Londres, onde seu pai de criao estava procurando fundar uma sucursal de
sua firma de Richmond, Ellis e AlIan, com comrcio de tabaco e mercadorias em geral. A
famlia residia na Praa Russell, em Southampton Row, e, nessa ocasio, o jovem Edgar
foi matriculado num internato, dirigido pelas Srtas. Dubourgs, na Rua Sloane, n.0 146,
em Chelsea. Ali permaneceu at o vero de 1817. No outono desse ano, entrou para a
escola de Manor House, do Reverendo John Bransby, em Stoke Newington, ento
subrbio de Londres, Ali permaneceu at certo tempo, na primavera de 1820, quando foi
retirado para voltar  Amrica. As memrias do jovem Poe, de seus cinco anos de estada
na Esccia e na Inglaterra, foram excessivamente vivas e continuaram a fornecer-lhe
recordaes para o resto da vida. Parece ter sido um jovem cavalheiro um tanto precoce e
orgulhoso. Curiosas e vvidas reminiscncias desses antigos dias escolares na Inglaterra
encontram-se na sua histria de "William Wilson".  significativo de suas relaes com
seus pais adotivos que as notas de sua instruo na Inglaterra sejam dadas para o jovem
Allan. No pode haver a menor dvida de que, naquela ocasio, o Sr. Allan o olhava como
filho. Outras provas no faltam.


ADOLESCNCiA

As ESPECULAES comerciais de John Allan em Londres no foram felizes. Voltou para
os Estados Unidos, chegando a Richmond, em agosto de 1820, cheio de considerveis
dificuldades, nas quais se viu tambm envolvido seu scio Charles Ellis. Cesses de bens
de raiz tiveram de ser conseqentemente feitas para satisfazer os credores. A vida da
famlia Allan, porm, continuou a ser confortvel. Edgar foi mandado para uma
Academia, dirigida por William Burke e mais tarde por Joseph H. Clarke, e freqentada
pelos filhos das melhores famlias de Richmond. Na escola, o jovem Poe sobressaiu-se em
lnguas, oratria, representaes teatrais e realizou notveis faanhas em natao. Parece
ter atrado a ateno de seus mestres e dos colegas mais velhos pelo seu brilho e ter sido
bastante estimado, apesar de mostrar-se um tanto distante, pela maior parte de seus
companheiros. Em idade muito precoce comeou a escrever poesias, datando seus versos



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logo dos treze anos. Em 1823, tornou-se ntimo da casa dum colega de escola, Robert
Stanard, cuja me, Jane Stith Stanard, tomou terno interesse pelo brilhante rapaz,
afeio que foi ardente e romanticamente retribuda. Foi a essa senhora que Poe dedicou
mais tarde seu poema "Para Helena", que comea: Helena, tua beleza  para ...
Sra.Stanard em breve enlouqueceu e morreu. Essa tragdia atingiu, sem dvida,
profundamente o corao de Poe, tendo sido para ele um grande golpe, que o abalou de
modo intenso. Conta-se, no sem discutvel autoridade, que ele rondava  noite o seu
tmulo, no cemitrio solitrio. No h dvida, porm, de que continuou a estremecer-lhe
a lembrana, enquanto viveu.

Seja como for, porm, em 1824, o jovem poeta, que estivera dirigir s moas dum colgio
feminino vizinho juvenis versos lricos: achou-se plenamente embarcado nas guas turvas
duma vida adulta. A Sra. Stanard morrera; seu pai adotivo achava-se em graves apuros
financeiros; a sade da Sra. Allan ia rapidamente definhando e havia na casa uma
dissenso domstica da mais sria espcie: John Allan dava-se, de tempos em tempos, a
relaes extra maritais. Alguns de seus filhos naturais viviam ento em Richmond e,
dessa ou daquela forma, chegou isso ao conhecimento de sua mulher, cujo pesar foi
imenso. Durante a visita de Lafayette a Richmond em 1824, o jovem Poe, que era oficial
numa companhia de cadetes, esteve na escolta do velho general. Isto lhe deu novo senso
de sua prpria dignidade e importncia, e ao mesmo tempo parece que em alguns de seus
encontros na cidade com companheiros adultos veio a saber do modo de vida de seu pai
de criao. Em casa Edgar tomou o partido de sua me e uma desavena, que, atravs de
vrias ramificaes, durou por mais de dez anos, se criou entre Poe e John Allan.A
situao era caracteristicamente exasperante a todos os respeitos, e o conflito, dramtico.

O Sr. Allan, ao que parece, havia, ao tempo da morte da Sra. Davi Poe, entrado na posse
de parte da correspondncia dela. O que havia naquelas cartas ningum jamais saber,
pois foram mais tarde destrudas pela Sra. Clemm, a pedido do prprio Poe. Talvez
houvesse algo de comprometedor nelas. Seja como for, a fim de garantir-se o silncio de
Edgar em torno de seus prprios negcio, o Sr. Allan escreveu uma carta a William Henry
Leonard Poe, em Baltimore, queixando-se de Edgar em vagos termos, acusando-o de
ingratido e atacando a legitimidade de Roslia, irm do rapaz. O efeito dessa carta, e
talvez tenha havido mais de um, foi evidentemente transtornador para ambos os filhos de
Isabel Poe. Decerto tornou ainda mais tensas as relaes na casa de Allan, em Richmond.
Trs anos mais tarde, encontramos Henry, em Baltimore publicando um poema,
intitulado "Numa Carteira de Lembranas" que d todas as mostras de que as dvidas a
respeito da legitimidade de sua irm tinham atingido o alvo.

Por esse tempo comeava Roslia Poe a dar sinais de paralisao do desenvolvimento.
Jamais se desenvolveu plenamente e, embora continuasse a ser estimada como filha
pelos Mackenzies, que haviam desde o comeo acolhido, permaneceu, quando muito, com
uma triste recordao do passado para seu irmo Edgar. Sobreviveu-lhe muitos anos,
morrendo afinal numa instituio de caridade em Washington, D.C.

A morte da Sra. Stanard, os apuros financeiros e conseqente irritabilidade de John
Allan, as disputas e contra-ataques em casa, sua prpria posio duvidosa ali - pois
nunca fora adotado e sua situao de caridade era constantemente reiterada - tudo isso
formava um penoso ambiente para um poeta jovem e ambicioso. Acresce que h
indicaes de que o Sr. Allan, como escocs prtico, tinha pouca ou nenhuma simpatia
pelas ambies de seu filho de criao no campo da literatura.

Em 1825, os apuros financeiros do Sr. Allan foram amplamente aliviados, pela herana
de grande fortuna de seu tio William Galt. Viu-se ele, em suma, homem bastante rico.
Todo o teor de vida da famlia mudou ento para um mtodo consoante com suas
melhores condies. Foi comprada nova casa de considervel aparato, e nessa vasta e



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confortvel manso, situada nas Ruas Quinta e Principal, da cidade de Richmond, teve
incio uma srie de diverses e funes sociais , a despeito da sade decadente da dona
da casa. Poe acompanhou a famlia, na nova casa. Seu pai de criao retirou-o da
Academia do Sr. Clarke e tinha-o preparado para a Universidade de Virgnia, que, sob o
patrocnio de Thomas Jefferson, acabara recentemente de abrir as portas.Numa rua
vizinha, vivia uma mocinha, chamada Sara Elmira Royster. Poe freqentava-lhe o salo,
onde cantavam e desenhavam quadros. Elmira tocava piano, enquanto Edgar a
acompanhava na flauta, ou passeavam pelos jardins, de mos dadas. Sabe-se que Henry
Poe visitou seu irmao, em Richmond, por esse tempo e acompanhou Poe  casa dos
Roysters. Antes de seguir para a Universidade, Edgar ficou noivo de Elmira. O trato,
porm, foi mantido oculto das pessoas de ambas as famlias.

Em fevereiro de 1826, Edgar A. Poe matriculou-se na Universidade de Virgnia. Tinha
ento apenas pouco mais de dezessete anos, mas pode dizer-se que sua idade adulta
comeara.Sua posio na Universidade era precria. Como "filho" dum homem rico,
possua bastante crdito e o prprio Poe estava disposto a viver de acordo com tal
reputao. Por outro lado, seu pai de criao parece mesmo, naquele tempo, ter-se
mostrado to alheio a seu pupilo que lhe dava mesada muito menor do que a necessria
para sua manuteno. O jovem estudante fez brilhantes progressos nos estudos, mas
tambm se entregou a rapaziadas um tanto fortes. A fim de manter sua posio, comeou
a jogar intensamente; perdeu, e utilizou-se de seu crdito junto aos lojistas locais de
modo atrevido. Foi por esse tempo tambm que ficamos sabendo, pela primeira vez, ter
ele comeado a beber. Os efeitos de bem pequena poro de lcool no organismo de Poe
foram devastadores. Parece ter sido um jovem brilhante, mas um tanto excntrico e
francamente nervoso.

Outra causa de tenso, nessa poca, foi o infeliz "desenvolvimento" do seu caso amoroso.
O Sr. e a Sra. Royster tornaram-se evidentemente conhecedores do fato de que o jovem
Poe no era mais considerado herdeiro por seu pai de criao. Logo souberam, sem
dvida, de seu namoro com Elmira, e ento trataram de fazer presso para desfazer o
noivado. As cartas de Poe para sua amada foram interceptadas; proibiram que Elmira lhe
escrevesse; as atenes de um jovem solteiro aceitvel, A. Barrett Shelton a cercaram,
insistentes; e por fim mandaram-na para fora, por algum tempo, sob custdia.

Entrementes, o Sr. Allan foi informado das dificuldades financeiras de seu pupilo, cujas
dvidas, dizia-se, haviam atingido o montante de 2500 dlares. Sua clera tornou
extrema, e quando Poe voltou a Richmond, para passar as frias do Natal de 1826, foi
avisado por seu tutor que no poderia voltar para a Universidade. As primeiras semanas
de 1827 foram passadas em Richmond nas mais tensas relaes entre o jovem Poe e o Sr.
Allan. A carreira de Poe na Universidade fora, sem dvida, bastante insatisfatria. Por
outro lado, a clera do Sr. Allan era implacvel e extrema. Recusou-se a pagar qualquer
das dvidas de honra de seu pupilo ou quaisquer outras dvidas; por esse meio reduzindo
ao desespero o esprito altivo do rapaz, que ele tinha elevado  categoria de seu filho. O
jovem Poe estava perseguido pelas letras de cmbio. Seu pai de criao aproveitou a
oportunidade para insistir em que ele estudasse Direito e abandonasse todas as ambies
literrias. Aparentemente por causa disso deu-se, afinal, o rompimento. Tiveram eles
violenta discusso, em maro de 1827, ao fim da qual o jovem poeta deixou a casa e foi
para uma hospedaria, donde escreveu pedindo sua mala e suas roupas e objetos
pessoais. Muitas cartas foram trocadas entre os dois sem que se chegasse a uma
reconciliao. Seus mtuos agravos se repetiram e Poe, afinal, acabou por, a despeito de
seu extremo desamparo, seguir para Boston ento a capital literria dos Estados Unidos.
Parece que o Sr. AlIan tentou evit-lo, mas sua mulher e sua cunhada talvez tenham
suprido Poe secretamente de uma pequena soma de dinheiro, por intermdio de um dos
escravos, antes que o rapaz se pusesse a caminho.




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Sob o nome falso de Henri Le Rennet, abandonou Richmond com um companheiro,
Ebenezer Burling, e alcanou Norfolk (Virgnia). Ali Burling o deixou, enquanto Poe
continuava a viagem num navio at Boston, onde chegou quase sem dinheiro, em certo
dia de abril de 1827. No foi para o estrangeiro, como tem sido tantas vezes afirmado, at
por ele mesmo. As datas de seus conhecidos paradeiros, tomadas de suas cartas e
documentos naquela ocasio, afastam definitivamente mesmo a possibilidade de uma
viagem  Europa. Em Boston h provas um tanto obscuras de que Poe tentou manter-se
escrevendo - para um jornal. E certo, porm, que, enquanto se achava em Boston,
durante a primavera e o vero 1827, travou amizade com um jovem impressor, um tal
Calvino F. S. Thomas, entrado de pouco no negcio, e valeu-se dele para imprimir um
volume de versos, Tamerlo e Outros Poemas. Parece que o impressor no conheceu Poe
seno por um falso nome. A capa do pequeno volume afirmava que o trabalho era de "Um
Bostoniano". A maior parte da edio, provavelmente devido  incapacidade de Poe para
pagar ao impressor, foi ao que parece destruda, ou teve que ficar encalhada. Somente
poucos exemplares do livro entraram em circulao e apenas apareceram duas apagadas
noticias. O prprio Poe parece ter reservado muito poucos livros para seu uso
pessoal.Entrementes, o autor desse volumezinho desconhecido, mas agora famoso,
achava-se reduzido  maior pobreza.

Totalmente sem meios, demasiado orgulhoso ou incapaz de recorrer a Richmond, tomou
por fim a desesperada resoluo de alistar-se no Exrcito dos Estados Unidos, em 26 de
maio de 1827, sob o falso nome de Edgar A. Perry. Foi destacado para a Bateria H do 1O.
de Artilharia dos Estados Unidos, e passou o vero de 1827 no acampamento do Forte
Independncia, no porto de Boston. No fim de outubro, seu regimento teve ordem de
seguir para o Forte Moultrie, em Charleston (Carolina do Sul).


JUVENTUDE

Os dois e meios anos que se seguem formam curioso intermdio na vida de um poeta. Poe
passa o tempo, entre novembro de 1827 e dezembro de 1828, cumprindo os deveres
militares de um soldado no Forte Moultrie. O forte estava localizado na ilha de Sullivan, 
entrada do porto. O jovem soldado tinha muitas horas de lazer, que certamente gastava
vagueando ao longo das praias, escrevendo poesias e lendo. Seus deveres militares eram
leves e completamente burocrticos, pois os oficiais logo notaram que ele se adaptava
melhor aos servios de escritrio do que  prtica com canhes. Deste perodo e do que
ele fez e imaginou, a melhor recordao  "O Escaravelho de Ouro", escrito muitos anos
mais tarde, mas repleto de cenas de cor local exatas. As obrigaes de Poe certamente o
punham em estreito contacto com seus chefes. Ele era diligente, sbrio e inteligente; e
uma promoo logo se seguiu. Em breve o encontramos destacado para servios
especializados, primeiro passo fora da posio de soldado raso. Ele mesmo, porm sentiu
que sua vida estava sendo desperdiada e, em certa poca de 1828, reatou a
correspondncia com seu pai de criao em Richmond, com o objetivo de solicitar uma
reconciliao e volta  vida civil. Embora as cartas de Poe fossem tocantes, rogativas
penitentes, seu tutor mostrou-se obstinado e o jovem permaneceu no seu posto, at
dezembro de 1828, quando seu regimento teve ordens de seguir para o Forte Monroe, na
Virgnia. Vendo que o tutor no lhe permitia voltar  casa, concebeu ele ento a idia de
entrar em West Point. Mas alguns dos oficiais de seu regimento, e, de modo particular,um
cirurgio, se interessaram por ele e trataram de exercer presso sobre John Allan. A 1o.
de janeiro de 1829, Poe, servindo ainda sob o nome de Perry, foi promovido a sargento
mor de seu regimento, o posto mais alto para um engajado.

Suas cartas para casa tornaram-se mais insistentes e a elas acrescentavam-se agora os
rogos da Sra. Allan, moribunda. Desejava ver seu "querido menino" antes de morrer. Por
mais estranho que possa parecer, John Allan manteve-se firme at o ltimo instante. Por



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fim, mandou chamar seu filho de criao que se achava ento apenas a poucas milhas de
Richmond; mas era demasiado tarde. A Sra. Allan morreu antes que Poe chegasse  casa
e, apesar de seu ltimo pedido de no ser enterrada seno quando seu filho de criao
voltasse, seu marido ordenou que se fizesse o enterro. Quando Poe chegou  casa, poucas
horas depois, tudo quanto ele mais amava se achava na sepultura. Diz-se que sua
angstia diante do tmulo foi extrema.

A Sra. Allan, todavia, arrancara de seu marido a promessa de no abandonar Poe.
Realizou-se ento uma reconciliao parcial e o Sr. Allan consentiu em ajudar o plano de
Poe de entrar em West Point. Escreveram-se cartas para o coronel de seu regimento
arranjou-se um substituto e o jovem poeta conseguiu dar baixa do Exrcito, a 15 de abril
de 1829. Voltou a Richmond para passar pouco tempo.Poe no demorou muito "em casa".
Arranjou, em grande parte por solicitao prpria, numerosas cartas de recomendao
para o Departamento da Guerra. Armado delas e de uma carta bastante fria de seu tutor,
que afirmava: "Francamente, senhor, declaro que ele no tem parentesco nenhum
comigo", partiu, mais ou menos 7 de maio, para Washington, onde apresentou as
credenciais, inclusive numerosas recomendaes de seus oficiais, concebidas nos mais
elevados termos, para o Secretrio da Guerra, Sr. Eaton. Longo perodo de quase um ano
decorreu, durante o qual esteve em dvida sua nomeao para West Point.Durante a
maior parte deste perodo, de maio de 1829 at o fim daquele ano, residiu ele em
Baltimore. Seu pai de criao enviava lhe de vez em quando pequenas somas, o suficiente
apenas para mant-lo vivo, e continuava frio e suspeitoso de suas boas intenes
relativas a West Point. Entretanto, o jovem Poe, depois de ter sido roubado por um primo
num hotel, procurou abrigo junto  sua tia Maria Clemm, irm de seu pai.

Em casa desta boa mulher, que foi desde o princpio seu anjo da guarda, encontrou Poe
sua av, a Sra. Davi Poe Snior, que era ento mulher idosa e paraltica, seu irmo Henry
e sua prima primeira Virgnia Clemm, menina de cerca de sete anos de idade. Mais tarde,
veio ela a ser a esposa do poeta. Durante esta estada em Baltimore, esforou-se Poe em
tornar conhecido seu nome literrio. Pouco depois de sua chegada, ns o vemos visitando
William Wirt, que acabava de retirar-se de uma ativa vida poltica em Washington, autor
das Cartas de um Espio Ingles e homem de considervel reputao literria. Poe deixou
com Wirt o manuscrito de "A Aaraaf", e dele recebeu uma carta mais de conselho que de
elogio. O incidente, porm, mostra que ele tinha em mos, ento, o manuscrito para um
segundo volume de poemas. Consistia este de numerosas poesias que tinham aparecido
no primeiro volume, bastante revistas, e algumas novas.

Seguiu ento para Filadlfia e entregou o manuscrito a Carey, Lea & Carey, famosa firma
editora de ento, que exigiu uma garantia antes de imprimi-lo. Poe escreveu a seu tutor
pedindo-lhe auxiliar com a soma de cem dlares a publicao do pequeno volume, mas
recebeu uma negativa colrica e uma censura severa por pensar em tal coisa. A 28 de
julho tinha ele, porm, ao que parece, arranjado a publicao do volume em Baltimore, e
escreveu a Carey, Lea & Carey, retirando o manuscrito. Por intermdio de amigos e
parentes de Baltimore, pde seu nome chegar aos ouvidos de John Neal, ento influente
jornalista em Boston, e a obra a aparecer recebeu algumas noticias encorajadoras nos
nmeros de setembro e dezembro do Yankee de 1829. O volume mesmo, intitulado Al
Aaraa/Tamerlo e Poemas Menores, foi publicado por Hatch & Dunning, em Baltimore,
em dezembro de 1829. Um tanto abrandado por este xito e a fama que ele atraiu, porm
muito mais pela certeza de que seu filho de criao estava prestes a receber sua to
retardada nomeao para a Academia Militar, permitiu o Sr. Allan que Edgar voltasse a
Richmond, onde ele permaneceu de janeiro a maio de 1830, na "grande manso". Sua
vida em Baltimore tinha sido assombrada pela pobreza e a volta a seu antigo modo de
existncia foi, sem dvida, bem-vinda para Poe.




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O Sr. Allan, porm, tinha razes particulares para desejar que seu pupilo estivesse fora de
Richmond o mais cedo possvel. Havia reatado relaes ntimas com uma antiga
companheira, aps a morte de sua mulher, e achava-se agora esperando um mal vindo
acrscimo aos seus filhos naturais. Renovaram-se as brigas com Poe. Depois de uma
delas, peculiarmente amarga, escreveu Poe uma carta a um antigo conhecido do Exrcito,
um sargento a quem devia pequena soma de dinheiro. Nesta carta, permitiu-se ele fazer
uma infeliz afirmativa acerca de seu tutor. Esta carta foi mais tarde usada pelo homem
para cobrar do Sr. Allan a quantia que lhe era devida e foi a causa final da expulso de
Poe.

A nomeao para a Academia Militar foi recebida em fins de maro. Os exames do
admisso eram processados em West Point no fim de junho e, em maio, Poe despediu-se
de seu tutor e seguiu para a Academia Militar, visitando de passagem seus parentes em
Baltimore. A primeiro de julho de 1839 prestou o juramento e foi admitido como cadete
em West Point..

Poe permaneceu na Academia Militar dos Estados Unidos de 25 de junho de 1830 a 19 de
fevereiro de 1831. No pode haver dvida de que a carreira militar no lhe agradava e que
fora forado a entrar nela pelo seu tutor, de cuja fortuna podia ainda esperar partilhar. O
Sr. Allan, porem, achava j ter cumprido seu dever, estando Edgar colocado em cargo
pblico, e sentia-se satisfeito por t-lo afastado de Richmond. No dia em que Poe entrou
para West Point, seu tutor foi presenteado com um par de gmeos naturais, a quem mais
tarde contemplou no seu testamento. Isto no o impediu, contudo, de casar-se pela
segunda vez e a nova ligao tornou-o mais do que nunca inimizado com seu filho de
criao.

Edgar Poe continuou a cumprir honrosamente seus deveres na Academia Militar, quando
toda a esperana de qualquer auxlio no futuro da parte do Sr. Allan foi destruda por
uma carta de Richmond, que o repudiava. O soldado havia apresentado a seu tutor a
carta escrita por Poe, um ano antes, e extrema foi a clera do Sr. Allan. Certificado de que
toda esperana de ajuda financeira, vinda de Richmond, desaparecera agora, Poe resolveu
tomar decises prprias e deixar o Exrcito para sempre. Como no pudesse obter do
Sr.Allan o consentimento para dar baixa, fez greve e deixou de comparecer s formaturas,
s aulas e  igreja. Foi submetido a corte marcial e destitudo por desobediente.

Enquanto se achava na Academia Militar, arranjara com Elam Bliss, editor nova-iorquino,
a publicao dum terceiro volume de poemas, subscrita pelo corpo de estudantes da
Academia.

Em fevereiro de 1831, seguiu para Nova York. Estava sem dinheiro, mal vestido, e quase
morreu dum "resfriado", complicado com uma doena do ouvido interno, depois de ter
chegado  cidade. Forado a pedir desculpas, apelou de novo para seu tutor, mas em vo.
Permaneceu em Nova York o bastante para ver seu terceiro volume fora do prelo.
Intitulava-se Poemas, Segunda Edio, e continha um prefcio dirigido ao "Querido B",
personagem desconhecido, no qual algumas das opinies crticas do jovem autor,
largamente procedentes de Coleridge, eram pela primeira vez expostas.

Depois de tentar baldadamente obter do Coronel Thayer, comandante de West Point,
cartas de apresentao para Lafayette, a fim de juntar-se aos patriotas poloneses, que se
tinham ento revoltado contra a Rssia, Poe deixou Nova York e viajou de Filadlfia a
Baltimore. Chegou a esta ltima cidade em dias do fim de maro de 1831 e novamente
passou a residir em Mechanics Row, Rua do Leite, com sua tia Maria Clemm, e a filha
desta, Virgnia. Seu irmo Henry achava-se ento de pssima sade, "tendo-se entregue 
bebida ", e moribundo. Poe passou os quatro anos seguintes, em em condies de




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extrema pobreza. Era ainda obscuro e suas aes, na maior parte das vezes, so muito
vagas. Alguns fatos porem, podem ser com certeza relanceados.

Durante a maior parte do perodo de Baltimore, deve ter Poe levado uma vida reclusa..
Comeou ento a voltar sua ateno para a prosa e conseguiu colocar alguns contos
numa publicao de Filadlfia. Seu irmo Henrv morreu em agosto de 1831. Edgar
continuava a morar com os Clemms. A famlia vivia atenazada pela pobreza e ele prprio,
na maior parte do tempo, no gozava de boa sade. De que vivia a famlia no se sabe
bem. Foram feitas tentativas para interessar mais uma vez o Sr. Allan em favor dele,
mas sem resultado. Nenhum auxlio veio de Richmond, exceto em certa ocasio em que,
por causa duma dvida contrada por seu irmo Henrv, esteve Edgar em perigo de ser
preso. O Sr. Allan enviou uma tardia resposta, que foi a ltima que Poe veio a receber
dele. Sabe-se que Poe dedicou ardente interesse a Maria Devereaux, moa que morava
perto da sua casa. Foi recusado e chicoteou o tio da moa. Por esta ocasio, freqentava
ele tambm as casas de seus parentes, os Poe e os Herring, especialmente estes ltimos.
Foi ento, tambm, que se ps a trabalhar com ardor, aperfeioando sua arte de contista
e compondo o seu nico drama, "Policiano".

Em outubro de 1833, concorreu a um prmio de cinqenta dlares, oferecido ao melhor
conto apresentado a um jornal de Baltimore, The Salurday Visitor. O prmio foi
concedido, por uma comisso de cidados bem conhecidos, ao "Manuscrito Encontrado
Numa Garrafa", de Poe.

Foi seu primeiro xito assinalvel e marca sua entrada no caminho da fama. O dinheiro
veio-lhe em socorro as necessidades, mas o efeito mais importante do concurso foi o
auxlio dado ao jovem poeta, agravado de pobreza, por John P. Kennedy, cavalheiro de
Baltimore, bastante rico, de corao bondoso e, ele prprio, escritor de teatro. O Sr.
Kennedy, por meio de vrios e oportunos atos de caridade e de prestgio, fez Poe
enveredar pela estrada do renome. Kennedy possibilitou a publicao de alguns dos
contos de Poe e apresentou-o a Thomas White, editor do Southern Literary Messenger,
que se publicava em Richmond (Virgnia). Poe comeou ento a colaborar, com crticas e
contos, naquele peridico e finalmente foi convidado, em 1835, a ir para Richmond, como
redator auxiliar.

Entrementes, o Sr. Allan havia morrido, em 1834, e no seu testamento no havia meno
de Poe. Duas mal-avisadas viagens de Poe a Richmond, entre 1832 e 1834 tinham tido
apenas como resultado afastar ainda mais de si seu antigo tutor e a famlia Allan.
Mantiveram-se de mal at o fim. Em julho de 1835, Poe deixou Baltimore para assumir
suas novas funes de redator, em Richmond.

Como jornalista, considerado simplesmente do ponto de vista do escritrio e da cadeira,
Poe constituiu um autntico xito. As assinaturas do Southern Literary Messenger se
multiplicaram. O Sr. White no podia deixar de ficar bem satisfeito. Era homem bondoso
e de boas disposies.

Bastante significativo da inabilidade de Poe em abandonar os estimulantes  o fato de
que, poucas semanas depois de sua chegada a Richmond, achou-se desempregado.
Voltou a Baltimore e ali se casou secretamente, a 22 de setembro de 1835, com sua prima
primeira Virgnia Clemm. Tinha esta, naquela ocasio, mais ou menos apenas treze anos
de idade e o casamento secreto originou-se da oposio dos parentes a uma unio to
prematura. Poe apelou ento, de novo, para o Sr. White, com promessas de abster-se da
bebida e reassumiu seu antigo posto, sob condio de boa conduta e com uma paternal
advertncia. A Sra. Clemm e sua filha Virgnia acompanharam Poe a Richmond e ficaram
morando com ele numa penso, na Praa do Capitlio.Poe permaneceu em Richmond,
como redator auxiliar do Sr. White, no Southern Lterary Messenger, do outono de 1835



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at janeiro de 1837. Durante sua estada no jornal, a circulao deste aumentou de 700
para 3 500 exemplares, atraiu a ateno nacional e pode-se dizer que foi inicialmente
devido a Poe que se tornou o peridico mais influente do Sul. Sua reputao foi depois
mantida e aumentada por outros homens de considervel habilidade jornalstica. A tarefa
do jovem redator escalonava-se do mero trabalho mercenrio de natureza francamente
jornalstica at a colaborao literria. Escrevia poemas, resenhas de livros, crtica
literria geral e particular e histrias curtas, quer seriadas, quer completas. As notas
sobre livros variavam desde o comentrio sobre as memrias, de Coleridge, at as
referncias a livros tais como as Cartas da Senhora Sigourney s Moas; em resumo,
desde as crticas bem raciocinadas e muitas vezes severas at s simples notcias com
leve comentrio critico. Alguns dos poemas que tinham anteriormente aparecido nos
volumes de poesia a que j aludimos foram republicados, consideravelmente revistos. Poe
continuou seguindo essa poltica de maior ou menor reviso constante e de republicao
impressa durante toda a sua carreira. Entre os mais notveis dos novos poemas que
apareceram nessa ocasio contam-se "Para Helena", "Irene", ou "A Adormecida", "Israfel" e
"Zante".

O tom geral da crtica literria nos Estados Unidos, ao tempo em que Poe comeou a
escrever para o Southern Literary Messenger, era um tanto superficial, servil ou nebuloso.
O comentrio do rapaz de Richmond era interessante, perturbador e renovador. Sua
freqente severidade provocava rplicas e observaes e, embora suscitasse antagonismo
em alguns setores, sua presena em cena e a mordacidade de seu estilo tornaram-se cada
vez mais evidentes.

Muitas das estrias que Poe tinha preparado para os Contos do Flio Clube. Em
Baltimore , antes de receber o prmio do Saturday Visitor, publicou-as ento no
Messenger. Estrias tais como "Metzengestein" - atraram considervel ateno, como
bem mereciam, e aumentaram no pouco a sua fama. Em algumas delas assinalada era
j ento observada e censurada. Tais comentrios de censura, porm, no impediam que
sua fascinao rara deixasse de ser sentida. Sob o ttulo de "Pinakdia", o jovem jornalista
publicou tambm, nessa ocasio, uma coleo do curiosas anotaes, abrangendo vasto
campo de interesse, tiradas de seu livro de notas. Muitas delas utilizou-as de novo, mais
tarde, na Revista Democrtica, com o ttulo de "Marginalia". Por este tempo, Poe foi
descrito como sendo "gracioso, de cabelos negros e ondulados, e magnficos olhos, usando
colarinho  Byron e parecendo poeta da cabea aos ps". O mais antigo retrato dele que
se conhece data de seus primeiros dias no Messenger e o mostra com suas e uma
expresso um tanto sardnica para homem to jovem. Mesmo naquela data ele era
evidentemente um tanto frgil e delicado. Sua tez, que mais tarde se tornou
completamente lvida,  descrita como tendo sido amorenada.

De seus negcios particulares, o mais importante acontecimento da poca de Rchmond
foi seu segundo casamento com sua prima Virginia. As razes do mesmo parecem ser
suficientemente claras. Fora clandestino o primeiro casamento em Baltimore, tendo como
nica testemunha a Sra. Clemm. Parentes influentes tinham-se oposto a ele e jamais fora
tornado pblico. Todas as explicaes foram evitadas por um segundo casamento em
pblico, nada tendo sido dito a respeito do primeiro, e a 16 de maio de 1836 um contrato
de casamento foi assinado no Juizado de Paz da cidade de Richmond, que d Virgnia
CIemm como tendo vinte e um anos. Na realidade, tinha ela menos de catorze anos de
idade naquele tempo e a aparncia de uma criana. O casamento realizou-se em uma
penso de propriedade de uma tal Sra. Yarrington, em companhia de amigos, tendo
oficiado um telogo presbiteriano chamado Amasa Converse. Depois de simples cerimnia
o casal partiu para sua lua-de-mel, que se passou em Petersburgo, na Virginia, em casa
de certo Sr. Hiram Haines, diretor do jornal local.




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Poe estava de volta para Richmond e seu trabalho no Messenger em fins de maio de 1836.
O Sr. White prometera-lhe um aumento de salrio para mais tarde.Depois de seu
casamento, na verdade algum tempo antes, a correspondncia do poeta com parentes e
amigos mostra que ele desejava montar casa. O plano seguido era solicitar dinheiro para
que a Sra. Clemm e Virgnia pudessem estabelecer uma penso. Embora alguns pequenos
auxlios, "emprstimos", fossem obtidos, o plano fracassou e a pequena famlia mudou-se
para uma casa barata na Rua Sete, onde parece que ficou at o fim de sua estada em
Richmond.

Poe continuou seu trabalho redatorial e, como resultado de sua observao, experincia e
ambio, comeou a desenvolver-se em sua mente um plano cujos comeos podem ser
rastreados desde Baltimore. Esperava montar e ser o editor de um grande magazine
literrio nacional. De que Poe foi um dos primeiros homens na Amrica a compreender as
possibilidades do jornalismo moderno, no que se refere a um magazine, no resta a
menor dvida. Desde ento, e at o fim de sua histria, foi esse o plano acarinhado de
sua vida. O infortnio e a sua prpria personalidade, mais do que as teorias que a
respeito do jornalismo entretinha, foram os responsveis pelo seu fracasso na realizao
de tal ambio.

Comeou ento a pensar em seguir para o Norte, a fim de montar a nova publicao,
mudana que a fama crescente e os atritos sempre numerosos com seu redator-chefe
serviram para apressar. Poe era brilhante, mas inadaptado ao trabalho em posio
subalterna. Deve-se, com toda justia, dizer que o Sr. White foi paciente. Foi porm
dominado, em vrias ocasies, pelo seu verstil e jovem redator e h tambm indicaes
de que, no outono de 1836, havia Poe mais uma vez decado de suas boas graas e, a
despeito de suas promessas bem intencionadas a White, estava-se entregando de novo, de
vez em quando,  bebida. Em adendo a isto, parece ter-se ele mostrado incontentvel.
Tirando vantagem de relaes que fizera por correspondncia com homens de Nova York,
tais como o Prof. Charles Anthon, John K. Paulding, os irmos Harper e outros, decidiu
mudar-se para aquela cidade.

Em conseqencia, em janeiro de 1837, liquidou seus negcios com o Southern Literary
Messenger e com o Sr. White e, levando a famlia consigo, partiu para Nova York. Parece
que ali chegaram mais ou menos em fins de fevereiro de 1837 e se alojaram na esquina
da Sexta Avenida com a Praa Waverly, partilhando um andar com um tal William
Gowans, livreiro, que prestou considerveis servios a Poe.

Antes de deixar Richmond, no vero de 1836, fizera Poe vrias tentativas de reunir as
estrias contidas nos Contos do Flio Clube e public-las em volume. Os manuscritos
tinham sido anteriormente deixados em Filadlfia com Carey & Lea, que os conservaram
durante algum tempo para examin-los, mas finalmente os haviam devolvido ao autor,
menos uma estria, em fevereiro de 1836. Poe enviou-os para .J. K. Paulding, em Nova
York, que os submeteu  apreciao dos Harpers. O resultado foi outra recusa. Paulding
escrevera a Poe, contudo, quando devolveu os contos, sugerindo uma longa narrativa em
dois volumes, em formato bem popular. Em conseqencia desta sugesto surgiu uma
comprida estria de aventuras, naufrgio e horrveis sofrimentos no ento desconhecido
hemisfrio meridional. Chamou-se "A Narrativa de Artur Gordon Pym" e foi finalmente
aceita pelos Harpers, que a publicaram em 1838, nos Estados Unidos. Wiley & Putnam
fizeram uma edio na Inglaterra, onde mais tarde a plagiaram. Foi o primeiro livro de
prosa de Poe, embora seu quarto livro publicado, havendo precedido trs volumes de
poesia. A estria apareceu em sries no Southern Literary Messenger mesmo depois de ter
Poe cortado suas relaes redatoriais. Era dada como escrita pelo prprio Artur Gordon
Pym e o verdadeiro autor apenas vinha mencionado no prefcio. O tipo de estria de
aventuras que a "Narrativa de Artur Gordon Pym" seguiu de perto era popular naquele
tempo. Poe deixou simplesmente que sua imaginao se entretivesse com materiais



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conhecidos, encontrados em livros tais como O Motim do Bounty, a Narrativa de Quatro
Viagens ao Pacfico, de Morell, e similares. Seu entusiasmo do momento pelo Antrtico
parece ter surgido dos preparativos ento feitos por um tal J. N. Reynolds para uma
expedio do Governo quelas partes. Nathaniel Hawthorne estava tambm interessado
no mesmo plano, que, porm, deu em nada. O xito do livro foi pequeno e trouxe ao autor
muito pouca fama e menos dinheiro ainda.

Pouco tempo depois de sua chegada a Nova York, Poe, Virgnia e a Sra. Clemm mudaram-
se para uma pequena casa, na Rua Carmine, n.0 13, onde a Sra. Clemm aceitou
pensionistas para poder se manter. Poe estava ganhando quase nada. Era um perodo de
pnico financeiro, sendo quase impossvel obter-se trabalho literrio. Os Poe foram
acompanhados  sua nova residncia pelo livreiro Gowans, que parece ter apresentado o
poeta a numerosos literatos, mas com pouco resultado. A pobreza da famlia era agora
extrema. A despeito disso, contudo, Poe continuou a escrever. As principais notcias que
se podem ter desta primeira, mas um tanto breve, estada em Nova York referem-se a uma
resenha de "Arabia Petraea", na Revista de Nova York, "Silncio (Fbula)", publicado no
Baltimore Book, e um conto chamado "Von Jung, o Mstico" (Mistificao) que apareceu
no American Monthly Magazine, de junho de 1837.

Os planos de iniciar um magazine de sua propriedade no devem ter encontrado
aceitao naquele tempo, devido  depresso financeira. Poe, na verdade, no era capaz
de obter at mesmo um lugar de redator secundrio, ou o suficiente trabalho mercenrio
que lhe garantisse a subsistncia. Seus atos desse tempo ho de permanecer para sempre
um tanto obscuros. Provavelmente por intermdio de Gowans, foi posto em contato com
James Pedder, ingls de capacidade literria quase nula, mas homem bondoso. Pedder,
por esse tempo, ocupava-se em obter, para si mesmo, ligaes com magazines de
Filadlfia, onde suas irms residiam. Por intermdio dele parece bastante provvel que
Poe foi induzido a deixar Nova York e mudar-se para Filadlfia, ento o grande centro
editorial dos Estados Unidos. Seja como for, ns o encontramos em Filadlfia pelos fins de
agosto de 1838, pensionista, juntamente com sua famlia e James Pedder, de uma casa
de cmodos mantida pelas irms do ingls na Rua Doze, um pouco acima de Mulberrv
(Arch).

Poe achou-se logo definitivamente encarregado de dois projetos literrios, a edio de um
compndio de Concologia e a de h muito adiada publicao de seus contos escolhidos.
Logo depois de sua chegada a Filadlfia, Poe mudou-se para mais perto das livrarias e
tipografias da cidade baixa, para uma casa de nmero 4 da Rua Arch (ento Mulberry),
onde continuou at 4 de setembro de 1838. Estava agora encarregado de editar o
"Primeiro Livro do Concologista, ou Sistema de Malacologia dos Testceos", compndio ao
qual ele emprestou seu nome.

Foi um mero trabalho mercenrio, e nada tem que ver com os originais e artsticos de Poe.
O livro  bastante procurado pelos colecionadores. So conhecidas pelo menos umas nove
edies dele, tendo sido a primeira publicada em abril de 1837, por Barrington e Haswell.
Poe escreveu o prefcio e a introduo e foi auxiliado no arranjo do texto e das ilustraes
por um tal Sr. Isaac Lee e pelo Prof. Thomas Wyatt, De Blainville e Parkinson so citados,
e Cuvier profusamente aproveitado. As belas gravuras de conchas foram furtadas do
Compendio dos Concologistas, trabalho dum ingls Thomas Brown, a quem no foram
dadas satisfaes.Posteriormente foi Poe atacado por causa disso e acusado de plgio. A
verdade  que o costume de furtar material para livros escolares era ento quase
universal e muito pouco censura se pode fazer realmente a Poe. Recebeu 50 dlares pela
utilizao de seu nome como redator . Na srie dos volumes publicados por Poe  este o
quinto.




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Esse compndio escolar era apenas uma transao financeira. Poe voltou a ateno para
publicao de seus contos. Arranjou-se publicar suas estrias escolhidas sob o ttulo de
Contos do Grotesco e Arabesco em dois delgados volumes. Foram publicados em
dezembro de 1839 por Lea & Blanchard, de Filadlfia. A pgina do ttulo traz a data de
1840. O autor no recebeu direitos autorais pelo seu trabalho, mas apenas uns poucos
exemplares para distribuir com seus amigos. O editor assumiu o risco, no muito
agradvel, pois os volumes se venderam muito devagar. Havia catorze estrias no
primeiro volume e dez no segundo, compreendendo o total todos os contos publicados at
aquela ocasio pelo autor e "Por que o francesinho Est com a Mo na Tipia ", s
aparecido mais tarde. Foi esta a sexta aventura de Poe com um volume impresso,
nenhum dos quais fora de modo algum um xito do ponto de vista financeiro.


MATURIDADE

ENTREMENTES havia-se Poe assegurado um emprego com William E. Burton, editor do
Burton's Gentleman's Magazine. O Sr. Burton era um ingls, ator, nas melhores
condies para a farsa grosseira, empresrio teatral e jornalista. Poe colaborou nesse
magazine, com resenhas bibliogrficas, artigos sobre esporte, pelo menos com cinco,
contos notveis e alguns poemas, sendo ''Para Algum no Paraso'' o mais notvel destes.
Foi no magazine de Burton que apareceram "A Queda do Solar de Usber", "William
Wilson" e "MoreIa". Ao mesmo tempo Poe correspondia-se com vrias figuras literrias,
entre as quais era Washington Irving a mais eminente.A ligao de Poe com Burton no
durou muito tempo. Houve numerosos atritos entre os dois. Duma feita, Poe se retirou,
mas foi induzido a voltar. Seu salrio era pequeno, seu trabalho inadequado e um tanto
intermitente. Passava novamente mal de sade, no sendo certo se devido, em parte, ao
uso de excitantes. De qualquer forma, ele e o Sr. Burton no podiam concordar. Este
ltimo vendeu seu magazine a George Rex Graham, em outubro de 1840, e Poe foi
conservado pelo novo editor, um dos mais capazes jornalistas da poca. Devido  m
sade no assume Poe suas funes no novo magazine de Graham seno em janeiro de
1841, quando se tornam plenamente evidentes em suas pginas traos de sua pena.

Estava ele ento morando numa pequena casa de tijolos, na juno da Rua Coates e
Fairmont Drive, em Filadlfia, para onde se tinha mudado, provavelmente no outono de
1839. Foi dessa residncia que ele deu a lume, no outubro de 1840, seu "Prospecto do
Penn Magazine, jornal literrio mensal, a ser redigido e publicado na cidade de Filadlfia,
por Edgar A. Poe". Neste prospecto as teorias de Poe, a respeito de um magazine, so
completamente postas a claro. Esperava receber bastantes assinaturas para prover-se de
fundos, a fim de lanar a empresa. Numerosssimas pessoas subscreveram, mas os
negcios do editor em perspectiva estavam em tais condies que ele foi forado a
abandonar seu plano, a fim de aceitar uma posio de assalariado, junto ao Sr. Graham.

O Penn Magazine foi, em conseqncia, adiado, ao passo que Poe aceitava um lugar em
casa de Graham, por 800 dlares por ano.

O xito do Graham's Magazine foi fenomenal. As assinaturas montaram de 5 000 a 40
000, em cerca de dezoito meses, sendo o aumento devido  capacidade redatorial de Poe,
ao nmero de artigos e poemas garantidos pela colaborao de notveis escritores, por ele
solicitada, e pela poltica do Sr. Graham, que era profuso nas ilustraes e bastante
generoso nos honorrios aos autores.O perodo da sociedade de Poe com o Sr. Graham,
que durou de janeiro de 1841 a abril de 1842, foi o perodo financeiro mais folgado de sua
vida. Seus lucros eram pequenos, mas suficientes para mant-lo e  sua famlia com
algum conforto. Foi por esta poca que ele iniciou o conto de raciocnio e publicou "Os
Crimes da Rua Morgue" e outras estrias de crime e sua descoberta. Interessou-se
tambm bastante por criptogramas e sua soluo, e, em 1842, publicou no Dollar



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Newspaper, a 20 de junho daquele ano, sua estria do "Escaravelho de Ouro", na qual a
soluo dum papel cifrado faz parte do enredo. Por esta estria recebeu um prmio de
100 dlares. Alguns dos mais reputados trabalhos de Poe apareceram no magazine de
Graham e atraram assinalada ateno. Comeou ento a tornar-se vasamente conhecido
como competente redator, crtico brilhante e severo, escritor de estrias arrepiantes e
poeta.
Sua sociedade com Graham foi, porm, de curta durao. No suportava sua posio
subalterna, com to pequeno salrio, esperanoso de lanar seu magazine prprio, e
tambm deu para beber. Em abril de 1842, suas "irregularidades" levaram o Sr. Graham
a empregar Rufus Wilmot Griswold, o mais notvel antologista americano daquela poca,
e competentssimo redator, em lugar de Poe. Encontrando-o um dia Griswold na sua
cadeira, Poe deixou as oficinas do magazine e nunca mais voltou, embora continuasse a
colaborar para ele, de vez em quando.

Em breve se tornou um livre-atirador, escrevia onde e quando podia, tentou obter um
emprego do Governo, na Alfndega de Filadlfia, por meio de amigos em Washington, e de
novo tentou lanar seu prprio magazine, agora projetado como O Estilo. Estava prestes a
ser bem sucedido, mas uma visita a Washington, em maro de 1843, quando infelizmente
se embebedou e exibiu sua fraqueza, mesmo na Casa Branca, arruinou suas mais
profundas esperanas. At mesmo seu melhor amigo, F. W. Thomas, novelista secundrio
e poltico do tempo, nada mais podia fazer por ele. O infortnio de agora por diante lhe
segue os passos.

Sua mulher Virgnia estava a morrer de tuberculose e tinha freqentes hemorragias. Ele
mesmo comeou a recorrer  bebida mais do que antes. H tambm algumas provas de
que se haja utilizado de pio. Foi mandado para Saratoga Springs, para recuperar a
sade, e voltou a Filadlfia, onde quase morreu duma leso cardaca. Naquela ocasio,
1844, estavam residindo os Poe no n.0 234 (agora 530) da Rua Sete do Norte, em
Filadlfia, numa casa ainda hoje de p. Ali, embora visitado por vrios amigos leais, entre
os quais se contavam o romancista Capito Mayne Reid, George Rex Graham, o gravador
Sartain, o editor Louis Godey, o ilustrador F. O. C. Darley, o poeta Hirst, o editor Thomas
Clarke e outros, experimentava Poe os tormentos da pobreza e do desespero.
Correspondia-se com James Russell Lowell e outras pessoas notveis, mas era incapaz,
por vrias causas, largamente devidas a seu temperamento e a suas condies fsicas, de
lutar contra o mundo. Certa vez, no outono de 1843, fez uma tentativa abortada de
publicar nova edio de seus contos, com o ttulo de Romances em Prosa de Edgar A. Poe.
Houve uma pequena edio em brochura, para ser vendida a 12 e meio cntimos, mas o
n.0 1, contendo "Os Crimes da Rua Morgue" e "O Homem que Foi Desmanchado",  o
nico da srie que se saiba tenha aparecido, embora se conhea a existncia dum
exemplar, contendo apenas a primeira estria. Do ponto de vista do colecionador  este o
mais raro de todos os volumes de Poe. O opsculo foi o stimo dos trabalhos impressos de
Poe. Nenhuma recompensa lhe adveio

Reduzido  mais horrenda necessidade e encontrando todos os caminhos fechados para
si, em Filadlfia, resolveu ento voltar para Nova York. A Sra. Clemm ficou, para fechar a
casa, e a 6 de abril de 1844, levando sua mulher invlida consigo, Poe seguiu para a
cidade de Nova York. Chegou ali na mesma noite, com quatro dlares e meio nos bolsos e
sem fins definidos.

Poe e sua mulher doente acharam abrigo numa humilde penso da Rua Greenwich, n.0
130. Com imediata necessidade de dinheiro, lanou uma de suas pilhrias favoritas,
escrevendo uma estria de falsas notcias para o Sun, de Nova York, mais tarde publicada
com o titulo de "A Baleia do Balo". Tais "balelas" eram "populares" naquele tempo e
favorecidas pelos diretores de jornais. A estria era hbil,  notvel mesmo agora, e
divertiu milhares de pessoas naquele tempo - com grande satisfao para Poe. O dinheiro



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assim ganho possibilitou a vinda da Sra. Clemm, de Filadlfia, para juntar-se aos dois em
Nova York.

Deixando a famlia na penso da Rua Greenwich, Poe passou a morar sozinho ento, na
penso duma Sra. Foster, n.0 4, da Rua Ana. Durante a primavera e o vero de 1844,
conseguiu arranjar o bastante, com artigos vendidos, alguns dos quais apareceram no
Columbia Spy (Pa.), no Godey's Lady's Book, no Ladies' Home Journal da poca, para
manter-se e manter difcilmente a famlia.

A sade de Virgnia piorava constantemente e, no comeo do vero de 1844, toda a
famlia se mudou para uma fazenda, localizada na estrada de Bloomingdale, onde  hoje a
Rua 84 e Broadway. A fazenda era de propriedade dum bondoso casal de irlandeses, com
numerosa famlia, os Brennans. Ali, durante uns poucos meses, no que era ento uma
encantadora solido rural, no formoso vale Hudson, parece que Poe gozou breve perodo
de paz. Durante este intervalo, comps "O Corvo", ou antes, deu-lhe a redao final, pois
que se sabe que poema j existia em verses mais antigas, que remontam a 1842. A
prpria idia do corvo foi tirada do Barnaby Budge. Durante o vero, manteve Poe
correspondncia com James Russel Lowell que estava escrevendo uma curta biografia de
Poe, de Graham, e com o Dr. Thomas Holley Chivers, poeta da Gergia, cuja obra
influenciou certamente o autor de "O Corvo ".

No outono , achou-se o poeta novamente sem recursos e a Sra. Clemm poe-se ento,
decididamente, em campo para arranjar-lhe algum trabalho pago. Foi ter com Nathaniel
P. Willis, ento diretor do Evening Mirror, de Nova York, e persuadiu-o a empregar Poe em
funes redatoriais de menos importncia. Em certo dia do outono de 1844, a famlia
mudou-se de novo para uma penso, na cidade, na rua da Amizade nmero 15, em Nova
York, onde ocuparam poucos quartos.

Poe continuou a fornecer trabalhos de ocasio para o Willis, e tambm pelas colunas do
Mirror, encontrou a oportunidade de chamar a ateno sobre si, dando umas notas
favorveis das poesias de Miss Barrett ( mais tarde Sra. Robert Browning) e metendo-se
num infeliz ataque contra Longfellow, conhecido como "A Pequena Guerra de Longfellow",
com numerosas repercuses.

Em fins de 1844, estava Poe prestes a cortar relaes com Willis, que se conservou seu
amigo fiel at o fim. Por intermdio dos bons ofcios de Lowell, fora Poe posto em contacto
com alguns jornalistas secundrios das vizinhanas de Nova York, que se preparavam
para lanar um novo semanrio, que se chamaria o Broadway Journal. Para esse jornal
foi Poe contratado, com funes redatoriais mais importantes do que as que lhe poderia
oferecer Willis.

Em janeiro de 1845, o poema de Poe "O Corvo" foi publicado anonimamente no Evening
Mirror, antes de seu aparecimento na Amencan Whig Review, de fevereiro. Provocou furor,
e no sbado, 8 de fevereiro de 1845, o Sr. Willis tornou a public-lo, sob o nome do autor,
no Evening Mirror. A reputao de Poe tomou imediatamente o aspecto da fama que
nunca mais veio a perder.
 intil dizer que nenhum poema na Amrica jamais se tornara to popular. O poeta
continuou a redigir o Broadway Journal, onde prosseguiu na polmica com Longfellow,
resenhou livros, publicou e republicou suas poesias, escreveu resenhas dramticas e
crticas literria, e reimprimiu muitas de suas estrias, agora mais avidamente lidas, por
provirem de uma pena famosa. Estava-se tambm preparando para tornar-se proprietrio
do Broadway Journal e, com este fim, endividou-se, enquanto querelava com Briggs, um
de seus scios.




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Comeou ento, tambm, pela primeira vez, desde seus antigos dias de Richmond, a levar
uma vida menos solitria e a freqentar uma sociedade semi literria e artstica. Poe foi
bastante visto, durante o inverno de 1845, nos "sales" de vrios escritores e de menores
luminares da sociedade de Nova York, que eram conhecidos como "os literatos".

Por intermdio do Sr. Willis conheceu uma tal Sra. Fanny Osgood, mulher de um artista
de alguma importncia e poetisa de segunda ordem, com quem ele logo travou uma
amizade ntima, seno amorosa. Acompanhava-a por toda parte, a tal ponto que ela se viu
finalmente obrigada, por causa do escndalo provocado e por causa de seu prprio estado
de tuberculose, a seguir para Albany. Poe acompanhou-a at ali, depois a Boston, e dali a
Providncia, em Rhode Island, onde, num passeio solitrio, tarde da noite, viu pela
primeira vez uma tal Sra. Helen Whitman, com quem mais tarde tratou casamento. O
segundo poema chamado "A Helena" celebra esse encontro.Lowell visitou Poe em Nova
York, na primavera de 1845, e encontrou-o levemente embriagado, nos seus aposentos da
Broadway, 195, para onde ele se havia recentemente mudado. Em julho, o Dr. Chivers
tambm o visitou e viu-o, certas vezes, sob a influncia do lcool, mas, no obstante, com
as caractersticas de seu gnio.

Os negcios de Poe, a despeito de sua crescente fama, no prosperavam.

Publicou uma srie de artigos no Godey's Lady's Book, sobre os literatos de Nova York.
Eram esboos pessoais, combinados com os obiter dicta do autor e um trao de crtica
literria, que causaram considervel rumor naquele tempo e, em um ou dois casos,
envolveram Poe em questes pouco dignas. Os "Artigos Sobre os Literatos" no pertencem
 crtica literria mais sria de Poe, mas so essenciais como um comentrio fcil e
contemporneo sobre pessoas que ele conhecia, a maior parte delas obscuras.

Em fins de 1845, apesar de seus desesperados esforos, o Broadway Journal faliu,
deixando seu redator, e j naquele tempo seu nico proprietrio, endividado, desanimado
e doente. Virgnia, sua mulher, continuava a definhar e aproximava-se da morte. Poe
achava-se, mais uma vez, sem meios de vida. Entretanto, tinha-se mudado de novo para
a Rua da Amizade, n.0 185. Uma infeliz conferncia em Boston, no outono daquele ano,
tinha proporcionado uma oportunidade a Poe, ento em srio estado nervoso, de fazer
mais ou menos uma exibio de si mesmo. O caso foi aproveitado pelos seus inimigos de
Nova York, que o exploraram muito. Tudo isso contribuiu para aumentar sua depresso.
Apesar disso, porm, conseguira dar a lume, em junho de 1845, seus Contos, coleo de
estrias suas, selecionadas por E. A. Duyckinck, hbil editor, e publicada por Wiley &
Putnam. Seguiu-se-lhe, em dezembro de 1845, O Corvo e Outros Poemas, seleo de seus
versos, editada pelo mesmo livreiro. Na srie de trabalhos de Poe surgidos durante sua
vida, constituem estes dois, respectivamente, os livros oitavo e nono. Os Contos foram,
em alguns casos, publicados em dois volumes e ambas as edies obtiveram pouco xito.
Ao mesmo tempo, sabia-se que Poe estivera a trabalhar numa antologia de vrios
escritores americanos, em que se ocupava de vez em quando, durante vrios anos. Nunca
foi publicada, embora existam alguns fragmentos do manuscrito.

Os negcios de Poe e a sade do Virgnia urgiam mais uma vez uma mudana para o
campo. Enquanto Poe viajava para Baltimore, a fim de fazer conferncias, na primavera
de 1846, a Sra. Clemm e Virgnia foram de novo passar uma temporada na fazenda de
Bloomingdale. Poucas semanas depois, encontramos a famlia toda, numa casa de
fazenda, na "Baa da Tartaruga", atualmente Rua 47 e East River. A estada ali foi breve.
Poe alugou uma casinha de campo de madeira em Fordham, ento uma pequena aldeia, a
cerca de quinze milhas de Nova York, e para ali a famlia se mudou, em fins de maio de
1846.




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Na casinhola de Fordham, ainda conservada como relquia no Parque de Poe, na cidade
de Nova York, o poeta e sua bondosa sogra, Maria Clemm, sofreram juntos os extremos
da tragdia da pobreza, da morte e do desespero. O vero de 1846 foi amargurado por
uma violenta briga com um tal T. D. English, a quem Poe havia atacado azedamente nos
"Artigos Sobre os Literatos". English ento replicou e depois de um encontro pessoal com
Poe acusou-o de falsificao, no Mirror, de Nova York. Poe processou o jornal e conseguiu
receber pequena quantia como indenizao, em fevereiro de 1847.

A sade de Poe era excepcionalmente m. Sua mulher continuava a definhar rapidamente
e ele prprio nem podia escrever bastante nem obter emprego. Durante a maior parte do
tempo, a Sra. Clemm, graas a vrios artifcios e ardis, conseguiu aliment-los. Ela, ao
mesmo tempo, pedia emprestado e mendigava e viu-se mesmo reduzida  necessidade de
cavar legumes,  noite, nos campos das fazendas vizinhas. Com a chegada do tempo frio,
as visitas de amigos e pessoas curiosas da cidade cessaram e os Poe foram deixados
sozinhos, em face dos rigores do inverno, sem combustvel ou suficientes roupas e
alimentos. Sob tais rigores, Virgnia definhava rapidamente. Jazia numa cama de palha,
enrolada no capote de seu marido e com um gato de estimao no colo, para fornecer-lhe
calor. Em dezembro de 1846, a famlia foi visitada por uma amiga de Nova York, a
Sra.Maria Luisa Shew, que encontrou Virgnia moribunda e Poe e sua "me" sem
recursos. Graas  sua bondade e um apelo pblico pelos jornais, as necessidades
imediatas da famlia foram aliviadas e Virgnia pde morrer em relativa paz, nos fins de
janeiro de 1847. Foi enterrada em Fordham, mas depois removida para o lado de seu
marido, em Baltimore.


O FIM

DEPOIS DA MORTE de Virgnia, a Sra. Clemm continuou a tratar de Poe, que pouco a
pouco voltou a um estado de sade um tanto melhor. A Sra. Shew auxiliou-a nisso, mas
se viu por fim obrigada a retirar-se, devido s exigncias amorosas de seu paciente.
Ajudado por seus amigos, mais uma vez comeou Poe a aparecer em pblico. Em
Fordham, escrevera ele "Eureka", longo "poema em prosa", de forma semi cientfica e
metafsica, que foi publicado em maro de 1848, por Geo B. Putnam, de Nova York. Foi
este o dcimo e ltimo dos livros do poeta, publicados durante sua vida, embora se saiba
existir uma edio de seus contos, datada de 1849. A natureza de "Eureka" impediu-o de
se tornar popular. Poe comeou a fazer ento conferncias, depois de uma viagem a
Filadlfia, no vero de 1847, quando outra recada na bebida quase se revelou fatal.

O fim de sua vida foi assinalado pela publicao de alguns de seus mais notveis poemas,
"Os Sinos", "Ulalume", "Annabel Lee" e outros, e por sua paixo por diversas mulheres.
Durante vrias viagens, a fim de pronunciar conferncias em Lowell, Massachusets, e
Providncia, em Rhode Island, ficou ele conhecendo Annie Richmond e Sara Helen
Whitman, a primeira, uma mulher casada, e a ltima, viva, de certa reputao literria e
de considervel encanto.

Depois de uma visita a Richmond, na Virgnia, no vero de 1848, na qual tentou travar
um duelo com um tal Daniel, redator de um jornal de Richmond, de novo entregou-se 
bebida. Comeou a fazer a corte  Sra. Whitman, visitando-a muitas vezes em Providncia
e mantendo uma intensa correspondncia. Por fim obteve o seu hesitante consentimento
para casar-se com ele, sob a condio de que se abstivesse da bebida. Porm, ento num
estado de triste aturdimento, achava-se "apaixonado", ou to escravizado  simpatia da
Sra. Richmond que, numa tentativa de pr fim aos seus impossveis problemas amorosos,
tentou suicidar-se, ingerindo ludano, em Boston, em novembro de 1848. A dose foi
apenas um vomitrio e ele sobreviveu.




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No dia seguinte, num estado que raiava pela loucura, apareceu em Providncia e suplicou
 Sra. Whitman que cumprisse sua promessa. Ela; ao que parece, na esperana de talvez
salv-lo, estava inclinada a casar com o poeta, mas a oposio dos parentes e outra volta
a bebedice da parte de Poe, finalmente levaram-na a despedi-lo . Grandemente pesaroso
voltou para Fordham, na mesma noite. Para os confortadores cuidados da pobre da
senhora Clemm, que se preparava com relutncia para acolher uma noiva.

Poe, tentou abafar o negcio e liquid-lo com certa fanfarronice. Haviam divulgado,
porm, notcias que causaram considervel escndalo. Ele se ps ento a escrever com
renovada atividade, enquanto continuava sua correspondncia com a Sra. Richmond. A
infeliz ,persistia em acompanhar-lhe os passos como um co. Magazines que haviam
aceitado seu trabalho faliam, ou suspendiam pagamento, sua sade novamente piorou, e
a Sra. Clemm viu-se obrigada a cuidar dele, em meio do delrio. Finalmente um melhor,
mas simples fantasma de si mesmo, empreendeu reviver seu plano de um magazine, O
Estilo, e, com capital fornecido por um admirador do Oeste, E. H. N. Patterson, partiu
para Richmond (Virgnia), na primavera de 1849, esperando obter auxilio ali de velhos
amigo. A Sra. Clemm ficou em Nova York, em casa duma poetisa, em Brooklyn, que devia
favores a Poe.

A caminho de Richmond, Poe se deteve em Filadlfia, onde comeou de novo a beber,
andando a vagar num estado de demncia .Por fim foi salvo da priso e tirado das ruas
por alguns amigos fiis, que reuniram a quantia suficiente para envi-lo a seu destino.

Avisado pelo que fora uma quase aproximao da morte em Filadlfia, Poe lutou com
todas as foras que lhe restavam para abster-se da bebida, e durante algum tempo
conseguiu-o. Em Richmond, pde, com auxlio de velhos amigos e de outras pessoas, que
agora reconheciam tanto sua fraqueza quanto seu gnio, encenar uma breve rentre. Fez
conferncias em Richmond e em Norfolk com grande xito; apareceu com aplausos e
dignidade na sociedade, e se tornou, finalmente, depois de alguma dificuldade mais uma
vez merecedor de obter a promessa de casamento de seu amor da mocidade, Elmira
Royster - agora Sra. A. B. Shelton, viva em boa situao.

Os preparativos para o casamento prosseguiram. A data foi marcada. Por algum tempo,
parecia que o romance da mocidade do poeta com Elmira ia merecer a recompensa de sua
mo e de um vultoso quinho da viva, em meio da vida.

Cartas foram escritas  Sra. Clemm participando o estado de coisas, e Poe estava pronto a
voltar a Nova York, a fim de traz-la a Richmond, para assistir ao casamento. Pouca
dvida pode haver de que em todos esse planos visse Poe no apenas a volta de sua
"perdida Lenora", mas uma velhice confortvel, preparada para a Sra. Clemm, refgio
contra o mundo e vitria sobre a pobreza.

At o fim, escrevia ele  Sra. Clemm, dizendo que ainda amava a Sra. Annie Richmond e
desejava que o "Sr. R. " morresse. Com esta carta, uma das ltimas que escreveu, a
curiosa histria de seus amores acaba em contradio e ambigidade, como comeara.

Tomando algum pouco dinheiro, que recebera do produto de uma conferncia, realizada
pouco antes de sua partida, Poe deixou Richmond, de manh bem cedo, a 23 de setembro
de 1849. Passara a tarde anterior com a Sra. Shelton e o casamento fora marcado para
1o. de outubro. Poe no conseguira abster-se completamente de beber enquanto estivera
em Richmond, e se encontrava indubitavelmente num estado anormal, quando partiu. O
inqurito, porm, mostra que ele se achava perfeitamente sbrio naquela ocasio
particular.




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Viajou de navio at Baltimore e ali chegou a 29 de setembro. ( que lhe aconteceu, naquela
cidade, no pde ser exatamente afirmado at hoje. Desenrolava-se uma eleio e a
maioria das provas aponta o fato de que ele comeou a beber e caiu nas mos duma
quadrilha de eleitores que provavelmente lhe ministraram algum licor com drogas e o
fizeram votar. A trs de outubro, foi encontrado pelo Dr. James E. Snodgrass, velho
amigo, em horrvel estado na srdida taberna da Rua Lombard. Mandando avisar um
parente de Poe, o Dr. Snodgrass levou o poeta, agora inconsciente e moribundo, num
carro, at o Hospital Washington e p-lo sob os cuidados do Dr. J. J. Moran, que era o
mdico-residente. Seguiram-se muitos dias de delrio, com apenas poucos intervalos de
lucidez parcial.. Chamava repetidamente por um tal "Reynolds" e revelava todos os
indcios de extremo desespero. Finalmente, na manha de domingo, 7 de outubro de 1849,
aquietou-se e pareceu repousar por breve tempo. Depois, movendo devagar a cabea,
disse: "Senhor ajudai minha pobre alma."
E assim morreu, como vivera - em grande misria e tragicamente.




O HOMEM E A OBRA
CHARLES BAUDELAIRE


 UM PRAZER bem grande e bem til comparar os traos fisionmicos dum grande
homem com suas obras. As biografias, as notas sobre os costumes, os hbitos, o fsico
dos artistas e dos escritores sempre suscitaram uma curiosidade bem legtima. Quem no
procurou algumas vezes a acuidade do estilo e a nitidez das idias de Erasmo, no recorte
acentuado de seu perfil, o calor e o tumulto de suas obras na cabea de Diderot e na de
Mercier, onde um pouco de fanfarronada se mistura  bonomia; a ironia obstinada do
sorriso persistente de Voltaire, sua careta de combate, o poder de comando e de profecia
no olhar lanado para o horizonte, e a slida figura de Jos de Maistre, guia e boi ao
mesmo tempo?

Quem no se deu ao engenhoso trabalho de decifrar a Comdia Humana na fronte e no
rosto potentes e complicados de Balzac?

Edgar Poe era de estatura um pouco abaixo da mdia, mas todo o seu corpo era
solidamente constitudo. Tinha ps e mos pequenos. Antes de vir a ter sua compleio
combalida, era capaz de maravilhosas proezas de fora. Dir-se-ia que a Natureza, e creio
que isso j foi muitas vezes observado, torna a vida bastante dura queles de quem
deseja extrair grandes coisas. De aparncia muitas vezes mesquinhas, so talhados como
atletas, to bons para o prazer como para o sofrimento. Balzac, assistindo aos ensaios de
Recursos de Quinola, dirigindo-os e desempenhando ele prprio todos os papis, corrigia
provas de seus livros; ceava com os atores, e quando toda a gente fatigada ia dormir,
entregava-se ele de novo vivamente ao trabalho. Todos sabem que enormes excessos de
insnia e de sobriedade praticou ele.

Edgar Poe, na mocidade, se distinguira bastante em todos os exerccios de destreza e de
fora; isto condizia um pouco com seu talento: clculos e problemas. Um dia apostou que
partiria dum dos cais de Richmond, que subiria a nado umas sete milhas o rio James e
voltaria a p no mesmo dia. E o fez. Era um dia ardente de vero. Nem por isso passou l
to mal.




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Aspecto, gestos, marcha, posio da cabea, tudo o assinalava, quando se achava ele nos
seus bons dias, como um homem de alta distino. Era marcado pela Natureza, como
essas pessoas que, num grupo, no caf, na rua, atraem o olhar do observador e o
preocupam. Se jamais a palavra "estranho", de que tanto se abusou nas descries
modernas, se aplicou bem a alguma coisa, foi certamente ao gnero de beleza de Poe.
Suas feies no eram vultosas, mas bastante regulares, a tez dum moreno-claro, a
fisionomia triste e distrada, e se bem que no a apresentasse, nem o tom da clera nem o
da insolncia tinham algo de penoso.

Seus olhos, singularmente belos,  primeira vista pareciam dum cinzento sombrio;
melhor examinados, porm, mostravam-se gelados por um leve tonalidade violeta
indefinvel. Quanto  fronte era majestosa no que lembrasse as propores ridculas que
os maus artistas inventam, quando, para lisonjear o gnio, transformam-no em
hidrocfalo, mas dir-se-ia que uma fora interior desbordante impele para diante os
rgos da perfeio e da construo. As partes que os craneologistas atribuem o sentido
do pitoresco no estavam no entanto, ausentes, mas pareciam deslocadas, oprimidas,
acotoveladas pela tirania soberba e usurpadora da comparao, da construo e da
casualidade.

Sobre essa fronte tronava tambm, num orgulho calmo, o sentido da idealidade e do belo
absoluto, o senso esttico por excelncia. Malgrado todas essas qualidades, aquela cabea
no apresentava um conjunto agradvel e harmonioso. Vista de lado, feria e dominava a
ateno pela expresso dominadora inquisitorial da fronte, mas o perfil revelava certas
deficincias havia uma imensa massa de crnio, adiante e atrs, e medocre quantidade
no meio; afinal uma enorme potncia animal e intelectual, e uma falha no lugar da
venerabilidade e das qualidades afetivas.

Os ecos desesperados da melancolia, que atravessam as obras de Poe, tm um acento
penetrante,  verdade, mas  preciso dizer tambm que  uma melancolia bem solitria e
pouco simptica para o comum dos homens.

Tinha Poe os cabelos negros, semeados de alguns fios brancos grosso bigode eriado, que
ele esquecia de pr em ordem e alisar devidamente. Trajava com bom-gosto, mas
negligentemente, com um cavalheiro que tem bem outras coisas que fazer. Suas maneiras
eram perfeitas, muito polidas e cheias de segurana.

Mas sua conversao merece meno especial. A primeira vez que interroguei um
americano a esse respeito, respondeu-me ele, rindo muito: "Oh! oh! ele tinha uma
conversa que no era l muito consecutiva!" Depois de algumas explicaes, compreendi
que Poe dava vastas pernadas no mundo das idias, como um matemtico que fizesse um
demonstrao diante de alunos j bem fortes em Matemtica, que ele monologava muito.

Na verdade, era uma conversa essencialmente nutritiva. No era um beau parleur, e alis
sua palavra como seus escritos, tinha horror  conveno; mas um vasto saber o
conhecimento de vrias lnguas, slidos estudos, idias colhidas em vrios pases faziam
dessa palavra um ensinamento        incomparvel . Enfim, era um homem para ser
freqentado pelas pessoas que medem sua amizade pelo ganho espiritual que podem
auferir duma convivncia. Mas parece que Poe tenha sido pouco severo na escolha de seu
auditrio. Que seus auditores fossem capazes de compreender suas abstraes sutis, ou
admirar as gloriosas concepes, que rasgavam continuamente com seus clares o cu
sombrio de seu crebro, era coisa que no lhe causava preocupao.

Vou procurar dar uma idia do carter geral que domina as obras de Edgar Poe.




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Poe se apresenta sob trs aspectos: crtico, poeta e romancista; e mais, no romancista h
um filsofo. Quando foi chamado para dirigir o Mensageiro Literrio do Sul (Southern
Literary Messenger), ficou estipulado que ganharia 2 500 francos por ano. Em troca de
to medocres honorrios, deveria encarregar-se da leitura e escolha dos trechos
destinados  composio do nmero do ms, e da redao da parte chamada editorial,
isto , da anlise de todas as obras aparecidas e da apreciao de todos os fatos literrios.
Alm disso, contribuiria muitas vezes com um conto ou uma poesia. Durante dois anos,
pouco mais ou menos, exerceu essa tarefa. Graas  sua ativa direo e  originalidade de
sua critica, o Mensageiro Literrio atraiu dentro em pouco todas as atenes.

Tenho, diante de mim, a coleo dos nmeros desses dois anos. A parte editorial 
considervel; os artigos so bastante longos. Muitas vezes, no mesmo nmero, encontra-
se a resenha dum romance, dum livro de poesia, dum livro de medicina, de fsica ou de
Histria. Todas so feitas com o maior cuidado, e denotam no autor um conhecimento
das diversas literaturas e uma aptido cientfica, que recordam os escritores franceses do
sculo XVIII. Parece que durante seus precedentes tempos miserveis, Edgar Poe havia
posto o seu tempo a juros e agitado um rol de idias. H ali uma coleo notvel de
apreciaes criticas dos principais autores ingleses e americanos, muitas vezes de
memrias francesas. Donde partia uma idia, qual era sua origem, seu objetivo, a que
escola pertencia ela, qual era o mtodo do autor, salutar ou perigoso, tudo isso era
nitidamente, claramente, rapidamente explicado.

Se Poe atraiu fortemente as atenes sobre si, arranjou tambm numerosos inimigos.
Profundamente penetrado por suas convices, fez guerra infatigvel aos falsos
raciocnios, s imitaes bobas, aos barbarismos e a todos os delitos literrios, que se
cometem diariamente nos jornais e nos livros. Desse lado, nada havia a reprochar-lhe.

Pregava com o exemplo. Seu estilo  puro, adequado s idias, dando delas a expresso
exata. Poe  sempre correto. Fato bastante assinalvel  que um homem de imaginao
to erradia e to ambiciosa seja ao mesmo tempo to amoroso das regras, e capaz de
anlises estudiosas e de pacientes pesquisas. Dir-se-ia uma anttese feita carne. Sua
glria de crtico prejudicou bastante sua fortuna literria. Muitos se quiseram vingar. No
houve censuras que no lhe lanassem mais tarde em rosto,  medida que sua obra se
avolumava. Toda a gente conhece essa longa e banal ladainha: imoralidade, falta de
ternura, ausncia de concluses, extravagncia, literatura intil. A critica francesa jamais
perdoou a Balzac  o Grande homem provinciano em Paris .

Como poeta, Edgar Poe  um homem  parte. Representa quase sozinho o movimento
romntico do outro lado do Oceano.  o primeiro americano que, propriamente falando,
fez do seu estilo uma ferramenta. Sua poesia, profunda e gemente, , no obstante,
trabalhada, pura, correta e brilhante, como uma jia de cristal.

Edgar Poe amava os ritmos complicados, e, por mais complicados que fossem, neles
encerrava uma harmonia profunda. H um pequeno poema seu, intitulado "Os Sinos" ,
que  uma verdadeira curiosidade literria; traduzvel, porm, no o . "O Corvo" logrou
vasto xito. Segundo afirmam Longfellow e Emerson,  uma maravilha O assunto  quase
nada, e  uma pura obra de arte. O tom  grave e quase sobrenatural, como os
pensamentos da insnia; os versos caem um a um, como lgrimas montonas. No "Pas
dos Sonhos" , tentou descrever a sucesso dos sonhos e das imagens fantsticas que
assaltam a alma quando o olho corpreo est cerrado. Outros poemas como "Ulalume" e
"Annabel Lee" gozam de igual celebridade. Mas a bagagem potica de Poe  diminuta. Sua
poesia, condensada e laboriosa, custava-lhe, sem dvida, muito esforo e ele necessitava
muitas vezes de dinheiro, para que se pudesse entregar a essa dor voluptuosa e
infrutfera.




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Como novelista e romancista, Edgar Poe  nico no seu gnero, como Maturin, Balzac,
Hoffmann, cada um no seu. Os variados trabalhos que espalhou em revistas foram
reunidos em dois grupos, um, Contos do Grotesco e Arabesco, o outro Contos de Edgar A.
Poe, edio Wiley & Putnam. Forma tudo um total de setenta e dois trabalhos mais ou
menos. H ali bufonadas violentas, puro grotesco, aspiraes desenfreadas para o infinito
e uma grande preocupao pelo magnetismo.

Nele  atraente toda entrada em assunto, sem violncia, como um turbilho. Sua
solenidade surpreende e mantm o esprito alerta. Sente-se, desde o princpio, que se
trata de algo grave. E lentamente, pouco a pouco, se desenrola uma estria, cujo interesse
inteiro repousa sobre um imperceptvel desvio do intelecto, sobre uma hiptese
audaciosa, sobre uma dosagem imprudente da Natureza no amlgama das faculdades. O
leitor, tomado de vertigem,  constrangido a seguir o autor em suas arrebatadoras
dedues.

Nenhum homem jamais contou com maior magia as excees da vida humana e da
natureza; os ardores de curiosidade da convalescena; o morrer das estaes
sobrecarregadas de esplendores enervantes, os climas quentes, midos e brumosos, em
que o vento do sul amolece e distende os nervos, como as cordas de um instrumento, em
que os olhos se enchem de lgrimas, que no vm do corao; a alucinao deixando, a
princpio, lugar  dvida, para em breve se tornar convencida e razoadora como um livro;
o absurdo se instalando na inteligncia e governando-a com uma lgica espantosa; a
histeria usurpando o lugar da vontade, a contradio estabelecida entre os nervos e o
esprito, e o homem descontrolado, a ponto de exprimir a dor por meio do riso. Analisa o
que h de mais fugitivo, sopesa o impondervel e descreve, com essa maneira minuciosa e
cientfica, cujos efeitos so terrveis, todo esse imaginrio que flutua em torno do homem
nervoso e o impele para a runa.

Geralmente Edgar Poe suprime as coisas acessrias, ou pelo menos no lhes d seno um
valor mnimo. Graas a esta sobriedade cruel, a idia geratriz se torna mais visvel e o
assunto se recorta ardentemente, sobre esses segundos planos nus. Quanto a seu mtodo
de narrao,  simples. Abusa do eu com uma cnica monotonia. Dir-se-ia que est to
certo de interessar, que pouco se preocupa em variar seus meios. Seus contos so quase
sempre narrativas ou manuscritos do personagem principal. Quanto ao ardor com que
trabalha muitas vezes no que  horrvel, observei em muitos homens que isso se deve a
uma imensa energia vital sem exerccios, por vezes a uma castidade obstinada e tambm
a uma profunda sensibilidade recalcada. A volpia sobrenatural, que o homem pode
experimentar em ver correr seu prprio sangue, os movimentos bruscos e inteis, os
grandes gritos lanados ao ar quase involuntariamente so fenmenos anlogos. A dor
um alvio para a dor, a ao repousa do repouso.

Nos contos de Poe jamais se encontra amor. Pelo menos, "Ligia " e " Eleonora" no so
propriamente falando, estrias de amor, sendo outra a idia principal sobre a qual gira a
obra. Talvez acreditasse ele que a prosa no  a linguagem  altura desse estranho e
quase intraduzvel sentimento; porque suas poesias, em compensao, esto fartamente
saturadas de amor. A divina paixo nelas aparece magnficamente constelada, e sempre
velada por uma irremedivel melancolia. Nos seus artigos, fala algumas vezes de amor
como se uma coisa cujo nome faz a pena estremecer. No " Domnio de Arnheim " afirmar
que as quatro condies elementares da felicidade so: a vida ao ar livre, o amor duma
mulher, o desprendimento de qualquer ambio e a criao dum Belo novo.

O que corrobora a idia da Sra. Frances Osgood referente ao respeito cavalheiresco de Poe
pelas mulheres  que, malgrado seu prodigioso talento para o grotesco e para o horrvel,
no h em toda a sua obra uma nica passagem que se refira  lubricidade ou mesmo
aos prazeres sensuais. Seus retratos de mulheres so, por assim dizer, aureolados;



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brilham em meio dum vapor sobrenatural e so pintados  maneira enftica dum
adorador. - Quanto aos pequenos episdios romanescos, h motivo para espanto que uma
criatura to nervosa, cuja sede do Belo era talvez o trao principal, tenha por vezes, com
ardor apaixonado, cultivado a galantaria esta flor vulcnica e almiscarada, para a qual o
crebro fervente dos poetas  terreno predileto?

Em Edgar Poe no h choraminguices enervantes, mas por toda a parte incessantemente,
o ardor infatigvel pelo ideal. Como Balzac que morreu triste talvez triste por no ser um
puro sbio, tem sanhas de cincia. Escreveu um Manual do Concologista. Tem, como os
conquistadores e os filsofos, uma aspirao arrebatadora para a unidade; assimila as
coisas morais s coisas fsicas. Dir-se-ia que procura aplicar  literatura os processos da
filosofia, e  filosofia o mtodo da lgebra.

Nessa incessante ascenso para o infinito, perde-se um pouco o flego. O ar fica rarefeito
nessa literatura como num laboratrio. Contempla-se a sem cessar a glorificao da
vontade, aplicando-se  induo e  anlise. Poe parece querer arrancar a palavra aos
profetas e atribuir-se o monoplio da explicao racional. Assim, as paisagens que servem
por vezes de fundo a suas fices febris so plidas como fantasmas. Poe, que no
partilhava das paixes dos outros homens, desenha rvores e nuvens que se assemelham
a sonhos de nuvens e de rvores, ou antes, que se assemelham a seus estranhos
personagens, agitadas, como eles, por um calafrio sobrenatural e galvnico.

Os personagens de Poe, ou melhor, o personagem de Poe, o homem de faculdades super
agudas, o homem de nervos relaxados, o homem cuja vontade ardente e paciente lana
um desafio s dificuldades, aquele cujo olhar est ajustado, com a rigidez duma espada,
sobre objetos que crescem,  medida que ele os contempla -  o prprio Poe. - E suas
mulheres, todas luminosas e doentes, morrendo de doenas estranhas e falando com uma
voz que parece msica, so ele ainda; ou pelo menos, por suas aspiraes estranhas, por
seu saber, por sua melancolia incurvel, participam fortemente da natureza de seu
criador.

Quanto  sua mulher ideal,  sua Titnide, revela-se em diferentes retratos, esparsos nas
suas poesias pouco numerosas, retratos, ou antes, maneiras de sentir a beleza, que o
temperamento do autor aproxima e confunde numa unidade vaga mas sensvel, e onde
vive mais delicadamente talvez que em qualquer parte esse amor insacivel do Belo, que 
seu grande titulo, isto , a soma de seus ttulos  afeio e ao respeito dos poetas.




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